Atlético-MG 112 anos: histórias e memórias da recuperação do terreno que virou shopping e impulsiona sonho da casa própria.

Foto: Bruno Cantini/Atlético-MG

Francisco Moreno Netto, advogado e conselheiro do Atlético, relembra ação na Justiça pela volta do patrimônio; antigo estádio virou shopping, parcialmente vendido para financiar a Arena MRV

Por Frederico Ribeiro — Belo Horizonte

O aniversário de 112 anos do Atlético-MG será celebrado pela torcida em meio à pandemia mundial do coronavírus. As comemorações ficam restritas nas casas dos alvinegros. Essa data ajuda o Galo a lembrar do passado, que ajuda também a olhar para o futuro. Por falar em casa, é em um novo estádio que o clube se baseia para garantir força financeira e títulos. A Arena MRV, entretanto, só ganhou condições de vida pois, há décadas, uma antiga moradia do Atlético foi resgatada. O GloboEsporte.com resgata essa história, que envolve o antigo estádio Antônio Carlos, batalha jurídica no STF, a construção do maior patrimônio do Galo e o sonho da casa própria.

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Após aprovações internas e de órgãos públicos, o Atlético tem toda a documentação para inciar as obras da Arena MRV, com prazo de 28 meses para concluir. Dos R$ 410 milhões da construção, mais da metade é proveniente da venda de 50,1% do shopping Diamond MallO Galo arrecadará R$ 290 milhões nesta operação, em valores corrigidos. E o clube só tem o centro comercial como patrimônio pois, em 1988, conseguiu resgatar o terreno onde era o antigo Antônio Carlos após briga na Justiça contra a prefeitura de Belo Horizonte.

Um dos advogados responsáveis pela ação que atravessou mais de 10 anos é Francisco Moreno Netto. Jornalista, com passagens pela Itatiaia, Itacolomi, TV Vila Rica e também pela TV Globo, o conselheiro do Galo formou o trio de advogados que conseguiu reaver o terreno de Lourdes para a posse do clube. Era o pontapé inicial para que o projeto da Arena MRV tivesse o mínimo de chance de sair do papel. Quando veio a vitória no Supremo Tribunal Federal, Moreno Netto lembra que foi como um título:

“Nós soltamos foguetes na sede do Atlético! Me sinto glorioso por ter ajudado o Atlético a vencer a batalha de devolução do terreno. Foi um ‘presentaço’ para o clube. Agora, se Deus me permitir, quero conhecer a Arena MRV”

Moreno Netto, conselheiro do Atlético-MG — Foto: Arquivo Pessoal

Moreno Netto, conselheiro do Atlético-MG — Foto: Arquivo Pessoal

O início

O estádio Antônio Carlos virou a redenção do Atlético esportivamente no fim da década de 1920. Era o primeiro campo com arquibancadas sofisticadas da história do clube. O Galo recebeu o terreno da prefeitura, uma vez que o órgão municipal precisou reaver o campo da Avenida Paraopeba (hoje Augusto de Lima). Em outubro de 1916, o prefeito Cornélio Vaz de Mello assim autorizava o uso do terreno em Lourdes pelo Atlético:

Art. 1º – Fica o Prefeito autorizado a conceder ao Club Athletico Mineiro, mediante a prova legal de sua organização, o terreno que actualmente occupa, ou outro que fôr julgado conveniente aos interesses da Prefeitura, para nelle a referida Associação estabelecer o seu campo de esport e, de accordo com a legislação em vigor, effectuar a construcção de archibancadas e outras obras necessarias aos seu fim. O terreno concedido será inalienavel e reverterá com todas as bemfeitorias ao dominio da Prefeitura, no caso de dissolução da sociedade.

Reportagem sobre o Estádio Antônio Carlos e sua época menos áurea — Foto: Reprodução

Reportagem sobre o Estádio Antônio Carlos e sua época menos áurea — Foto: Reprodução

O Estádio Antônio Carlos seria inaugurado em 1929. Entretanto, com a chegada de arenas maiores – Independência em 1950 e Mineirão em 1965 -, o campo de Lourdes se tornou obsoleto e serviu para poucos jogos na década de 1960. Passou a ser, então, o local de treinamentos das equipes e alojamento dos times de base. Até que, na virada dos anos 60 para a década de 1970, prestes a ser campeão brasileiro, o Galo acumulava dívidas com bancos e achou no Antônio Carlos uma maneira de saldar os débitos.

Primeiro com o presidente Eduardo Magalhães Pinto, em 1967. Carlos Alberto Naves, seu vice e sucessor, queria implementar um Parque Esportivo no Antônio Carlos, migrando os locais de treino para a atual Vila Olímpica, ainda inexistente. Depois, o plano passou a ser hipotecar o velho estádio para a Caixa Econômica Federal por um ano, ideia discutida em reunião do conselho em dezembro de 1969.

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O jeito foi se desfazer do Antônio Carlos para a Prefeitura, que queria construir áreas de lazer e praças de esporte na capital mineira. A situação foi decidida no Galo em 1971. Tanto que, já campeão nacional, o Atlético tentava ser novamente dono do estádio, já na posse da Prefeitura. O que valeu nota com teor irônico da Revista Placar:

“Atlético quer de graça o que vendeu caro”

O presidente do Galo, Nelson Campos, em conversa com o então governador Rondon Pacheco na recepção dos campeões, afirmava: “Todo bom filho que passa de ano merece um presente dos pais. O presente do Atlético só custa cr$ 3 milhões”. Nos jornais da época, era dito que a dívida do Galo girava em cr$ 4 milhões, e que o terreno do Antônio Carlos era avaliado em cr$ 3,5 milhões. O sacrifício do antigo estádio valeu a redenção alvinegra na época. Mas foi sua retomada, anos depois, que garantirá a promessa de prosperidade.

A lei, o shopping e a arena

Foi folheando o Diário Oficial do Município que o advogado e jornalista Francisco Moreno Netto sofreu aqueles momentos de luz interna, a famosa “eureka” de Arquimedes. Viu a lei de desapropriação do Antônio Carlos e, ali, uma margem para que o Atlético, sem precisar de “presentinho” dos órgãos públicos, tivesse novamente a posse do terreno valioso em Lourdes. Ao pegar o local, a Prefeitura instituía a finalidade de usá-lo como sede administrativa. Entretanto, tinha prazo para tal e, se usasse o terreno para outros fins, dava a chance de o Atlético reaver o lugar pelo preço da desapropriação.

A Prefeitura jamais deixou a Avenida Afonso Pena, e o Antônio Carlos, asfaltado e com apenas parte das arquibancadas ainda originais, virou um centro de lazer para diversas atividades esportivas e de entretenimento. Modesto Netto explica, então:

Francisco Moreno Netto a redigir contrato do jogador Ilton Chaves, do Atlético, na década de 1950 — Foto: Arquivo Pessoal

Francisco Moreno Netto a redigir contrato do jogador Ilton Chaves, do Atlético, na década de 1950 — Foto: Arquivo Pessoal

– Acontece que, eu lendo uma lei municipal no nosso escritório de advocacia, encontrei nesta lei que dizia: “Se a Prefeitura negociar algum terreno municipal e esse terreno tivesse uma finalidade específica, estaria sujeito a devolução do terreno, se a construção não se iniciasse em um prazo de três anos”. A Prefeitura desapropriou o estádio, ele foi demolido. Mas, se a Prefeitura não destinasse o terreno para a construção da nova sede dela, o proprietário anterior – quer dizer, o Atlético – poderia reaver o terreno, se pagasse a mesma importância recebida, e com os juros de lei.

Moreno Netto, já participante do dia a dia do Atlético no conselho deliberativo, praticava direito no escritório de dois outros colegas alvinegros: Demétrio Ornelas e o ex-presidente José Ramos Filho. Esse último foi o alicerce financeiro para a elaboração e continuidade da ação judicial Atlético x Prefeitura. Num primeiro momento, a própria direção do Galo não quis levar em consideração o que foi uma luta árdua. Após derrota em primeira instância, vitória em segunda, o caso foi parar no Superior Tribunal Federal.

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Em 1984, Atlético-MG brigava com prefeitura pelo terreno do antigo estádio Antônio Carlos

Em 1984, Atlético-MG brigava com prefeitura pelo terreno do antigo estádio Antônio Carlos

Em 1988, o extinto Jornal dos Sports noticiava que o Atlético voltava a ter a posse do terreno de Lourdes, que viria a ser o bote salva-vidas de anos e anos de insuficiência econômica.

“Os diretores do Atlético estavam eufóricos ontem, e fizeram uma festa na sede de Lourdes para comemorar a decisão do Supremo Tribunal Federal, que lhe deu novamente a posse do antigo Estádio Antônio Carlos. O terreno foi desapropriado em 1970 pela Prefeitura, e o presidente do clube avalia os 13,7 mil m² em cerca de 10 bilhões de cruzados”. O Atlético fez um empréstimo bancário para ressarcir a prefeitura, e esta dívida foi herdada pela empresa que construiu o Diamond Mall.

– Nós soltamos foguetes na sede do Atlético! Quem foi para Brasília fazer a defesa oral foi o dr. Demétrio, que era o mais novo dos três. Nós não recebemos nenhum centavo de honorário. O dr. José Ramos financiou tudo e não cobrou nada do clube, por amor – lembra Moreno Netto.

Shopping Diamond Mall — Foto: Reprodução/Site oficial do Diamond

Shopping Diamond Mall — Foto: Reprodução/Site oficial do Diamond

Atuando no Mineirão, treinando na Vila Olímpica e já projetando recursos para a chegada da Cidade do Galo (projeto elaborado na gestão de Elias Kalil), o Atlético resolveu arrendar o terreno, desta vez para a criação do shopping Diamond Mall.

Novamente, é o Jornal dos Sports que auxilia o guia da linha do tempo. Em 30 de julho de 1992, o periódico informava e tentava profetizar:

“O Atlético-MG acaba de firmar um contrato que pode significar sua independência financeira e transformá-lo num dos clubes mais ricos do mundo. No antigo estádio Antônio Carlos, no bairro de Lourdes, um dos mais valorizados de Belo Horizonte, o clube irá construir um shopping center (…) O investimento é de US$ 50 milhões e o prazo para a conclusão das obras é de 36 meses”.

Expansão, rendimentos, finanças

O Diamond Mall demorou além do programado. Foi inaugurado em 1996, tendo a Multiplan, a empresa de calçados Elmo e a Usiminas como parceiras no empreendimento. Além do próprio Atlético, proprietário do shopping que, pelo contrato, teria direito a 15% da receita bruta dos aluguéis de lojas e estacionamento. O contrato de arrendamento era de 30 anos – até 2026. Mas foi ampliado até 2030 quando a Multiplan comprou 50,1% do Diamond para o Atlético ter receita para levantar a Arena MRV.

Após 10 anos da parceria que fez o Galo ser dono de shopping, o clube arrecadava R$ 3 milhões por ano (em valores corrigidos pelo IPCA, seria o equivalente a R$ 6 milhões). Para 2020, o Atlético prevê a arrecadação via Diamond Mall em R$ 10 milhões anuais. E a tendência é de aumentar. O shopping terá expansão e criação de novas lojas. Mais aluguéis, maior incidência dos 15% e mais dinheiro entrando. Neste tema, é o atual presidente Sérgio Sette Câmara que comenta.

– Vem aí uma expansão do Shopping, o Atlético não tem que desembolsar nada. Pelo contrato, todo o custeio da expansão, do andar novo do shopping, é pago pela Multiplan, que é uma obra de quase R$ 70 milhões. Ou seja, acrescenta mais R$ 35 milhões ao patrimônio do clube. O Atlético tem um percentual em cima do faturamento do shopping. Se você aumenta loja, você aumenta a base de cálculo e a base de incidência desses 15%. Quer dizer, 15% de R$ 1 mil daria R$ 150, 15% de R$ 2 mil daria R$ 300 – afirmou, ao GloboEsporte.com.

Sérgio Sette Câmara, atual presidente do Atlético — Foto: Reprodução/TV Globo

Sérgio Sette Câmara, atual presidente do Atlético — Foto: Reprodução/TV Globo

Hoje, os 50,1% do shopping que o Atlético negociou por R$ 250 milhões já estão batendo a casa dos R$ 300 milhões. Agora, fica uma questão que já foi levantada, mas carece de análise profunda do conselho: o que fazer com os 49,9% que restou na posse do Galo?

São dois caminhos que se desenham. A partir de 2031, já com a Arena MRV no bairro Califórnia perto de completar 10 anos, o Galo passa a receber pouco menos da metade do faturamento anual líquido do Diamond Mall. Por outro lado, poderia negociar esse percentual restante por valores similares aos R$ 250 milhões e, assim, abater boa parte das dívidas. Discussão para o conselho deliberativo, conforme aponta Sette Câmara.

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Samuel Moreira da Silva

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